Atisi

Meu mais novo RPG, Atisi, que se utiliza do sistema de regras do Barbarians of Lemuria, foi financiado com sucesso via Catarse. Foi um momento de extrema alegria ver que oitenta e nove pessoas acreditaram no potencial daquele livro e deram seu apoio. Foi um sinal de confiança e de carinho.

Porém, uma crítica ao conteúdo do livro (e a mim) chegou ao meu conhecimento há dois dias. Foi algo que se baseou em parte do livro (uma versão prévia, contendo trechos), mas que se tornou reflexo do todo. E, como estamos numa época em que é mais rápido somar uma voz a algo já dito do que compreender o que está sendo criticado, outros passaram a falar também de mim e do livro (que ainda não foi publicado).

Confesso que isso me deixou chateado. Somos seres tão emocionais quanto racionais, e isso me afetou.

Mas passou. Óbvio.

Contudo, em seguida, outra coisa aconteceu: pessoas passaram a verbalizar seu apoio por mim e pela obra.

Até aí, tudo bem. Isso trouxe um alento, pois eram pessoas que, ou me conheciam pessoalmente, ou conheciam minhas obras – e sabiam o que esperar de mim.

Porém, houve um problema. E não foi um problema simples. Deixe-me explicar.

Alguns dos meus apoiadores foram mais exaltados e começaram a criticar e a atacar (mesmo que sem citar nomes) os que falaram negativamente de mim e de Atisi. E esse é o grande problema! Quando você passa a atacar o outro, você demonstra que não entendeu nada do que eu escrevi.

Entenda, leitor, que cada um de nós só pode reagir a algo a partir de sua própria visão de mundo, e essa é moldada por nossas experiências. Duas pessoas terão, necessariamente, reações diferentes quando confrontadas por algo que mexa com sua visão de mundo – é natural, é esperado. – E, mais do que isso, com Atisi eu quis questionar também tudo isso.

Veja o exemplo da linguagem no livro:
genero
Embora alguns tenham achado estranho o uso do feminino ao se referir às pessoas que jogam o RPG (no caso, usando Mestra de Jogo e Jogadoras) e o masculino para se referir às personagens fictícias por elas representadas (Heróis, por exemplo), isso não é a primeira vez que acontece. Vejamos alguns exemplos:

Glorantha, na versão HeroQuest (2013), tem uma postura de usar o pronome feminino para quem conduz o jogo e o masculino para quem joga. Isso pode ser visto num pequeno trecho do livro, na página 8 do sample file deles. Em todo o caso, segue recorte da página:
glorantha
Fudge, publicado em 1995 pela Grey Ghost Press (e um dos RPGs que influenciou minha vida como RPGista), em suas regras (que podem sem baixadas aqui), refere-se a quem joga e seus personagens no masculino, e a quem conduz a aventura e seus personagens no feminino. Veja:
fudge
E poderia encontrar outros exemplos. Mas por que, quando trazemos isso para o idioma português (veja que nem o idioma inglês possui um pronome neutro para se referir a pessoas), isso incomoda? De certa maneira, a linguagem molda nossa forma de ver o mundo – e, quando atingimos a forma de ver o mundo de alguém, incomodamos. – Mas não é o trabalho do escritor justamente questionar nossas acomodações? Meu objetivo foi o de nos fazer repensar, mesmo que de maneira indireta, num jogo, nossa forma de ver o mundo. E, sinceramente, acredito que tenha atingido tal meta, pois isso gerou incômodo: se todos, sem exceção, aceitassem a proposta de apresentação do livro (masculino x feminino), isso tudo não seria necessário, pois nossa sociedade já teria deixado para trás esse viés de questão de gênero.

Mas este é um caminho longo, e, da mesma maneira como, na ficção fantástica (com os livros A última Dama do Fogo, Regência de Ossos, e Crença de Ossos, por exemplo) eu tenho protagonistas femininas fortes, quis colocar na figura das pessoas que jogam esse mesmo protagonismo feminino. Ou, de forma similar, no livro-jogo Mistério na Vila da Neblina, no qual a identificação de gênero de quem protagoniza o livro é deixada neutra, pois a figura heroica é a do leitor.

Outra coisa que ouvi como crítica, é a de eu ter embranquecido os povos no cenário. Isso me deixou mais perplexo do que chateado, pois claramente revela que, talvez no afã de apresentar uma argumentação contra a essência fantástica desse RPG de espada e feitiçaria (que sempre foi apresentado como tendo influência egípcia, e nunca como uma representação fiel da realidade do antigo Egito), ignoraram o conteúdo do livro. Não sei. Pode ter sido isso ou outra razão… Mas prefiro acreditar que tenha sido um lapso baseado na arte utilizada (mais sobre isso adiante) do que realmente uma interpretação do texto. Assim, vejamos trechos das descrições dos povos do cenário:

  • Atisi: “sua tez é bronzeada e seus cabelos e olhos costumam ser bem escuros.”
  • Gotai: “possuindo uma pele morena, olhos castanho-escuros e cabelos que beiram ao preto.”
  • Principados de Minal (um povo que não pertence aos Reinos Insulares, que é o foco do livro): “com estatura mediana e pele ligeiramente bronzeada.”
  • Mungo: “Os mungoeses são geralmente descritos como belos gigantes de obsidiana, mas esse exagero é perdoável. Eles são altos e possuem pele escura, com olhos negros e penetrantes.”
  • Kunla: “Os kunlani possuem estatura mediana e pele oliva, tendo olhos que variam do azul claro até o esverdeado.”
  • Kidhai: “Os kidhainas possuem pele muito escura, cabelos ondulados em tons pardos e olhos com íris negra e esclera amarelada.”
  • Javala: “Os javalanos possuem a pele ligeiramente bronzeada, cabelos e olhos castanho-escuros.”
  • Eiman: “Os eimani são baixos e largos, possuindo uma pele acobreada, olhos e cabelos castanho-claros.”
  • Qatab (que seria a exceção, pois é um povo que vem de terras distantes e é claramente inspirado na versão fantasiosa dos vikings): “Os qatabii são altos e de compleição firme, tendo pele e olhos claros, com cabelos que variam do louro até o ruivo.”

Entendem a razão de eu ter ficado perplexo quando falaram de embranquecimento? Mas como eu disse, isso pode ter relação com a arte usada.

E por quê? Bem, numa passada de olhos rápida, se minha conta não está errada, temos 50 imagens distintas no interior do livro. Se um artista fosse contratado para fazer cada uma delas, mesmo que sem exclusividade para a obra, estaríamos falando de um investimento de cerca de R$ 40,00 por arte (há variações, mas na média poderíamos chegar a valores similares a esse). Isso significa que, apenas com investimento de arte interna, teríamos um custo de R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Qual foi a alternativa? Recorrer a pacotes de imagens (custo reduzido, qualidade variável), imagens em domínio público, e, em casos específicos, contratação de um artista. Do contrário, jamais conseguiríamos ter uma meta tão baixa (foi pedido R$ 2.500,00) para confecção dos livros, pagar a licença de uso do sistema de regras, editoração e coisas assim.

Além do mais, vocês não acreditam o quão difícil é encontrar imagens representativas de povos de etnias africanas na fantasia. Foi uma busca longa, e, mesmo que tivéssemos encontrado uma ou outra imagem, como a que ilustra a seção de magia do livro, abaixo, foi impossível contemplar todas as possibilidades (a menos que tivéssemos um maior investimento, coisa que, para uma empreitada de um homem só, não foi possível desta vez). Quem sabe numa segunda edição? Assim espero.

De qualquer maneira, sendo o RPG um jogo que acontece no teatro da mente, usando a imaginação numa contação de histórias interativa e lúdica, nunca considerei a arte interna de um livro como o fator mais importante dele – é, assim como as regras, apenas um acessório para a diversão.

Mas, como frisei antes, tudo depende da visão de mundo de cada um. Eu tenho uma visão limitada? É óbvio que tenho. Por ser um homem branco, hétero, cis, minha visão de mundo é muito diferente daquela cujos povos são retratados, por isso procurei fazer duas coisas importantes: a primeira foi tratar o cenário como algo fantástico, e não um reflexo da realidade; a segunda, consultar historiadoras que defendem o movimento feminista e negros, pois por mais que a todo momento eu tenha tentado me colocar no lugar do outro, é evidente que minha percepção seria, no máximo, representada por uma forma de empatia…

É, talvez empatia seja a palavra chave nisso tudo. Ver-se como o outro. Tentar compreendê-lo antes de julgar. É por conta disso que acho que todo apoio que foi dado a mim e à obra recentemente e acabou se exaltando ao culpar e nomear o outro fugiu de tudo aquilo que acredito (lembram de uma postagem antiga, chamada A crítica e a verdade?) – mas isso, também, é fruto da visão de mundo de quem me apoiou.

E, ao falar em visão de mundo, lembro de uma das críticas que acaba comparando a descrição da mulher astuta com a mulher traiçoeira – quando alguém considera a pessoa astuta como traiçoeira ao invés de esperta ou sagaz (ou seja, busca a definição negativa ao invés da positiva ao compreender uma palavra), isso já demonstra como o mundo se coloca para ele. – Ou seja, no fim das contas, é preciso mudar o mundo para todos nós, mas um livro como o que escrevi não é capaz de mudar o mundo… Livros apenas mudam pessoas, se elas quiserem e se identificarem com eles… Mas espero que, com empatia, as pessoas realmente consigam mudar o mundo.

Mas, até que isso aconteça, que possamos nós fazer nossa parte.

Lembrança pelo Dia da Mulher

Quando a menina não tiver de esconder seu pranto por ter sido agredida
Quando a jovem não mais for julgada por sua escolha de vestuário
Quando a mulher não mais for encarada como uma serva do homem

Quando a menina puder sorrir
Quando a jovem puder sonhar
Quando a mulher puder viver

Então, e só então, comemoraremos o Dia da Mulher

Até lá, apenas nos lembraremos desta data

Pois ainda não há o que celebrarmos

Martel e Scliar

Eu sei. O que estou dizendo aqui não é algo novo, mas de alguma maneira a blogosfera literária trouxe novamente o assunto à tona e acho importante falar algo a respeito. Afinal, quando defendo a bandeira da liberdade de expressão dos blogs (e, com isso, manifesto-me contrariamente a qualquer tipo de plágio), também tenho de abarcar autores nesse ideal.

E aqui falamos da polêmica envolvendo Yann Martel e Moacyr Scliar. Caso seja esta a primeira vez em que você lê algo sobre o assunto, permita-me resumi-lo…

O livro A Vida de Pi (Life of Pi, no original), publicado em 2001 pelo canadense Yann Martel, tem uma premissa singular: um garoto sobrevive a um naufrágio e acaba por dividir seu pequeno bote com um grande felino. Tal livro lhe rendeu o Prêmio Man Booker em 2002. Posteriormente, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica que recebeu onze indicações ao Oscar.[pullquote]Por que ter uma premissa brilhante arruinada por um escritor menor?
-Yann Martel, sobre o livro de Moacyr Scliar[/pullquote]

Só que, em 1981 (20 anos antes d’A Vida de Pi), o saudoso escritor gaúcho Moacyr Scliar trouxe ao mundo a narrativa Max e os Felinos (Max and the cats, em inglês). Essa é uma história que fala de um garoto que sobrevive a um naufrágio e acaba por dividir seu pequeno bote com um grande felino.

Mas não considere apenas as minhas palavras sobre o assunto. Veja este trecho de uma entrevista concedida por Yann Martel via email ao sítio Brothers Judd (tradução livre):

Entrevistador: Talvez isto tenha a ver com a questão anterior mas, este parece ser o tipo de livro dirigido pela sua vontade de escrever sobre o Pi, pois ele é encantador demais, porém é também fácil imaginar um autor sendo dirigido pela imagem mental de um homem num bote com um tigre. Você teve alguma epifania, ou há alguma história ou pessoa específica, ou ainda outro gatilho que se tornou a base original para o livro, ou é o produto de apenas algumas ideias no papel?

Yann Martel: Em poucas palavras, isto é o que aconteceu: Dez anos atrás. Resenha no New York Times por John Updike acerca de um romance brasileiro de um tal Moacyr Scliar. Falava de uma família de judeus que tinha um zoológico em Berlim em 1933. Os negócios afundavam (alguém tinha acabado de tomar o poder). Eles decidem se mudar para o Brasil. O navio afunda. Tratador de animais acaba num bote com uma pantera negra. Óbvia alegoria da Alemanha Nazista.
Não era uma boa resenha. Nada contra Updike. Mas a premissa ficou em minha mente. Pensei “Cara, eu poderia fazer algo com isso.” Mas o livro já havia sido escrito, então eu segui em frente e escrevi meu primeiro romance e viajei.
Cinco anos depois eu estou na Índia. Lembro da premissa. Explosão imaginativa.

Agora vamos para 6 de novembro de 2002, visitando o New York Times. No trecho de uma reportagem, temos o seguinte (tradução livre, novamente):

“Eu não queria mesmo ler o livro,” escreveu Sr. Martel. “Para que isso? Por que ter uma premissa brilhante arruinada por um escritor menor? Pior, e se Updike tivesse errado? E se não apenas a premissa mas também sua execução fossem perfeitas? Melhor seguir em frente.”

O próprio Dr. Scliar disse: “Recebo todas as minhas resenhas dos meus editores, e não tenho nenhuma do John Updike. Então, esse é outro aspecto estranho dessa história.”

E então passamos ao Zero Hora de Porto Alegre com algumas palavras do autor de Max e os felinos:

A imprensa veiculou declarações atribuídas a Yann Martel segundo as quais ele teria tomado conhecimento do livro através de uma pouco favorável resenha do escritor norte-americano John Updike, publicada no The New York Times. Só que John Updike não escreveu resenha alguma sobre o livro, conforme declarou ao The New York Times de 6 de novembro. A resenha (elogiosa, se é que este detalhe interessa) publicada no The New York Times é de Herbert Mitgang. Mas, e isto quero destacar, em contraste a tais declarações, Yann Martel faz-me um agradecimento no prefácio de seu livro.

Esse é um caso isolado? Temo que não. Afinal, se voltarmos para a década de 30, temos outra polêmica literária envolvendo um livro publicado aqui no Brasil. É o caso de A Sucessora, de Carolina Nabuco. Tendo enviado o original para o estrangeiro na esperança de publicação (o que não ocorreu), preparou o caminho para, quatro anos depois, ver o livro Rebecca ser publicado por Daphne du Marier… Rebecca e A Sucessora têm o mesmo enredo e, segundo Larry Rohter (na mesma matéria apontada acima sobre Martel e Scliar), chegam a ter as mesmas cenas.[pullquote]Somos ainda uma colônia a ser explorada, com todos os recursos (antes materiais, agora também intelectuais) prontos a serem tomados pelos outros?“[/pullquote]

Será que a razão pela qual alguns fazem isso com nossa produção cultural é a tosca ideia de que o que produzimos aqui não tem valor, que pode ser apropriado à vontade? Somos ainda uma colônia a ser explorada, com todos os recursos (antes materiais, agora também intelectuais) prontos a serem tomados pelos outros? Há outros casos de plágio, desta vez envolvendo música.

Temos uma cultura maravilhosa. Temos boa música, temos excelente literatura. Mas o que falta para que percebamos isso? O que falta para nos conscientizarmos de que nem tudo o que vem de fora é melhor?

O que falta para termos orgulho de nós mesmos e para que ergamos nossa voz quando tentam usurpar o que é nosso?

Investimento editorial

Proibição de livrosCriar algo não é fácil. É muito mais simples aproveitar algo já pronto do que investir tempo (e dinheiro) para que algo se torne real.

E isso ocorre no mercado editorial brasileiro.

Um exemplo é o que foi relatado pelo blog Porre Literário, da amiga Karina Andrade. Uma editora conceituada (trocadilho proposital) decidiu que não vai mais investir na publicação impressa de autores nacionais porque autor nacional não vende. Não vende mesmo?

Depende do referencial. Como disse o colega escritor Walter Tierno, “consolidar um mercado de autores nacionais leva tempo e é trabalhoso.” Temos a tradição de investir em nossos autores? As editoras levam a sério a ideia de que marketing é fundamental para a venda de qualquer produto, em especial um produto que tem sido relegado às margens?

Para nós, autores, um livro é um tesouro. Para os leitores, é uma porta para um novo mundo.

Para uma editora (empresa que vende a produção intelectual na forma de livro – impresso ou digital), um livro é apenas um produto a ser comercializado.

Sendo um produto, a análise que fazem é simples: se vender bem, continuam produzindo; do contrário, cessam a produção.

E esse produto, de onde vem? Há dois caminhos. O caminho fácil é pegar um produto que já esteja vendendo e simplesmente trazê-lo para suas estantes. Assim, buscam livros que tenham sucesso internacional (já vendem, já possuem marketing feito) e trazem pra cá. Simples e de fácil retorno.

O outro caminho é investir de verdade. Vasculhar nas pilhas de originais que recebem diariamente algo que tenha potencial e trabalhar o manuscrito (deve ser muito difícil acreditar que um livro – qualquer livro – não possa ser melhorado por um trabalho editorial decente, incluindo revisão e copidesque nisso). Uma vez pronto, investir na propaganda para que o público saiba que o livro existe. Propaganda vende. Vende muito.

Vende até o que não presta…

Mas não. Para que investir no autor nacional? Autor nacional não vende…

Deixe-me ver se entendo isso:

1. Recebem um bom original de um autor nacional
2. Lançam o livro
3. Não investem em propaganda
4. O leitor não sabe que o livro existe e não compra
5. Conclusão: autor nacional não vende

E como é com o autor internacional?

1. Procuram algo que já vende bem lá fora
2. Lançam o livro
3. Fazem propaganda em tudo quanto é lugar: jornais, revistas, traseiras de ônibus
4. Muita gente compra sem nem saber do que se trata o livro
5. Conclusão: autor internacional vende

Onde está o investimento editorial? No autor nacional é que não está (isso quando não surge editora dizendo que vai fazer edição de 500 exemplares de um livro nacional e não traz nenhum – porque não imprimiu os livros – pro dia do lançamento se o autor não se comprometer a comprar os exemplares).

Existem exceções? Felizmente existem. Mas ainda assim, há a alternativa de partir para a publicação independente…

Regência de Ossos ganha prêmio

No final do ano passado, em meio às Festas, houve uma votação para escolha dos melhores livros de 2012.

Isso foi organizado pela talentosa Anna Schermak, do blog Pausa para um Café. A escolha dos livros foi feita em duas etapas: na primeira, os leitores indicaram os melhores livros de cada categoria (Romance, Drama, Terror, Fantasia, Ficção Científica, Graphic Novel, Infantil, Policial, Sobrenatural) de maneira livre; depois, os mais votados de cada categoria foram para um segundo turno, que definiria o melhor de 2012.

Foi uma grata surpresa saber que Regência de Ossos havia sido indicado na primeira fase. E foi ao lado de nomes como Ascenção da Casa dos Mortos (Lemos Milani), Branca dos Mortos e os Sete Zumbis (Abu Fobya), Doença e Cura (Fabian Balbinot) e Sob a Redoma (Stephen King!) que a definição se deu. Numa votação apertada (com apenas 6 votos de diferença), com 36% da preferência dos leitores, Regência de Ossos foi escolhido como melhor livro de Terror de 2012.

Agradeço ao blog Pausa para um Café e, em especial, a todos os meus leitores, pelo prêmio alcançado. No segundo dia do ano essa notícia veio coroar os esforços em trazer a cada um de vocês um pouco mais das histórias que tenho a contar.

Isso merece uma comemoração, não é verdade? Então, para brindar em retribuição, anuncio agora que o livro Regência de Ossos ganhará uma nova edição neste ano, com capa nova feita pela magnífica Carol Mylius. Em breve, o livro estará nas grandes livrarias e, de lá, nas suas mãos.

Cotas

Um dos caminhos para a publicação é a participação em coletâneas (ou antologias) literárias. É uma forma de um autor relativamente desconhecido passar a ter seu nome atribuído a um quinhão de uma obra, cruzando o limiar que o leva ao rol de autores publicados.

E quais sãos os tipos de coletâneas? Em geral, há três:

  • Concursos (com ou sem taxa de inscrição);
  • Gratuitas; e
  • Cotas.

Concursos existem em tamanhos e formas diferentes. Uns oferecem como prêmio a publicação (e, talvez, alguns exemplares). Outros, além da publicação, um prêmio em dinheiro. Os que são gratuitos se assemelham às coletâneas nas quais os autores não pagam para participar (que discutirei a seguir)… Mas o que vejo como problema são aqueles que exigem uma taxa de inscrição.

Por quê? Porque o autor pagará um valor e pode não receber nada em troca. Tudo bem que pode haver renome e muito dinheiro envolvido se for uma grande publicação, mas não vejo razão para se pagar por algo que possa não lhe dar retorno algum (mesma razão pela qual não jogo em loterias).

Coletâneas gratuitas, por sua vez, não exigem taxa alguma (como seria de se esperar pelo nome). O autor envia seu texto e, se ele figurar entre os melhores recebidos pela comissão avaliadora, depois de possíveis alterações ele será publicado. O autor pode receber seus direitos autorais antecipadamente na forma de livros ou em dinheiro de acordo com as vendas.

É aí que entra as coletâneas por cotas. Elas possuem características distintas, que podem se tornar mais atrativas ou não de acordo com a situação de cada um.

Em primeiro lugar, o que são cotas? Cota é a quantia que se contribui para aquisição de um bem comum. Em suma, a editora e os autores contribuem financeiramente para a publicação mas, como essa publicação é comum aos que contribuiram, todos recebem uma quantidade de exemplares referentes à sua participação.

São esses os direitos autorais? Não. Esses exemplares representam a sua parte, a sua cota. Seus direitos autorais serão pagos pela editora quando ela vender os livros que tiver em estoque (pois a editora investe também na publicação): com o passar do tempo, de acordo com as vendas, os autores são contatados para receber seus direitos autorais.

E o que o autor faz com os exemplares de sua cota? Ele pode promover a coletânea, pode guardar para si, ou, o mais usual, ele pode vendê-los. Isso lhe permite reaver o que investiu anteriormente com o lucro que julgar adequado. No fim das contas, com essas vendas ele pode obter ainda mais retorno do que se tivesse, simplesmente, aguardado as vendas dos livros nas livrarias para receber 10% do preço de capa dividido entre todos os autores.

Já participei de coletâneas gratuitas e por cotas. Compreendo que uma editora que trabalhe com antologias gratuitas publique menos (pois todo o custo é arcado pela editora) do que uma que trabalhe com antologias por cotas (pois o custo é dividido com os autores), mas entendo que a qualidade dos textos é a mesma. E por quê? Porque quem organiza a antologia quer ver os melhores textos publicados. Ninguém em sã consciência lançaria uma antologia que não tivesse bons escritos.

É fundamental, no entanto, conhecer outras obras da editora antes de investir seu dinheiro numa coletânea por cotas (na verdade, é importante observar isso ao enviar seu texto a qualquer editora), pois será seu nome que estará naquele livro se seu texto for aprovado. A editora prima pela revisão? Os livros possuem uma boa apresentação (capa, qualidade, disposição do texto nas páginas)? Quem organiza a coletânea (seleciona os textos) o faz de maneira idônea e é bastante crítico? Essas questões é que vão determinar a qualidade da obra, e não o fato dos autores terem contribuído ou não financeiramente para que ela viesse se tornar real.

Estigmas

Hoje eu li algumas mensagens em tom de desabafo no Twitter de Tatiana Mareto, uma colega escritora. Já tive livros autopublicados e até já falei sobre isso. Vejo a autopublicação como uma alternativa ao sistema editorial vigente e, por mais que eu hoje seja um autor publicado pela Editora LetraImpressa, não tenho como não apoiar aqueles que querem seguir um caminho solo.

Tatiana diz que não entende a preferência dos leitores por livros publicados por editoras tradicionais (clique na imagem para ampliá-la, ou leia a mensagem original). Eu acho que entendo. A questão, creio, baseia-se no critério que, em tese, deve existir para uma publicação tradicional.

Em tese (e friso bem isso porque nem sempre isso ocorre), o autor encaminha seu texto para uma editora tradicional que o repassa para seus leitores críticos (in house, como editores, ou freelancers pré-selecionados). Se a obra está dentro dos gêneros publicados pela editora, se a leitura é instigante, se o texto é bem escrito, se vale a pena publicar (veja que, desses quatro critérios, apenas dois são objetivos…), o livro é apresentado para a Comissão Editorial (que pode ser formada por apenas uma pessoa em editoras pequenas) para discussão. Se for aprovado, o texto volta para o autor para efetuar eventuais mudanças e, depois de uma segunda análise crítica (e, às vezes, uma terceira, quarta e quinta análises), ele pode ser publicado. Isso, é claro, em linhas gerais e sem entrar a fundo no processo propriamente dito.

Então, quando o livro está na livraria, diante do leitor, ele já passou por todos esses crivos. E, em tese, será algo bom de ser lido.

E aí?

Acontece que algumas editoras tradicionais também têm aberto espaço para algo similar à autopublicação – digo similar porque se teve o intermédio de uma editora, não mais se aplica o prefixo auto. Às vezes a editora avisa o leitor ao colocar os livros assim publicados sobre um selo específico, mas às vezes esses livros aparecem nas estantes das livrarias sem diferença alguma dos outros títulos.

É então que a coisa complica. Há editoras com pacotes específicos, que incluem a revisão, diagramação, elaboração de capa, distribuição… Outras colocam tudo isso à parte. Confia na revisão feita pela sua tia? Ótimo, não pague a revisão. Acha que sua diagramação no Word está boa? Perfeito, não pague pela diagramação. A capa feita no Paint ficou linda? Esqueça o pagamento da capa… Brincadeiras à parte, às vezes é melhor você ter um revisor de confiança do que esperar que a editora faça a revisão para você, mas acho que já dá para entender o que quero dizer.

Bem, e onde está o crivo da leitura crítica? Nesse caso, não há. Se o autor pôde pagar pela publicação, ele será publicado.

Agora, em que isso difere da autopublicação?

Na verdade, no logotipo da editora colocado ou não na capa do livro.

Um bom autor, consciente das suas responsabilidades como artífice da palavra, sabe que seu texto deve ser julgado por seus pares (leitores críticos), deve ser escrito de acordo com a norma ortográfica (um bom revisor pode auxiliar nisso) e ser de fácil leitura (é para isso que diagramadores estudam tipografia e outras formas de apresentação de texto)… Se ele quer apresentar um bom livro, ele terá cuidado com essas coisas, seja em um livro autopublicado ou em um financiado inteiramente por uma editora. Ele vai querer que sua obra seja algo a ser degustado.

Outros, porém – mais escrevinhadores do que autores -, querem apenas colocar seu texto nas mãos dos leitores. Seja um texto bom ou ruim, autopublicado ou com o selo de uma editora, seu objetivo é só mostrar a história que inventou. É desse tipo de obra que o leitor deve recear. – fuja! não abra o livro!

Um bom autor luta para ter um bom livro. Por mais que haja estigmas pelo fato de não haver um selo de uma editora na capa, ele continua com a bandeira de sua narrativa, querendo levar sua obra aos leitores. Ele sabe as agruras que enfrentou até ter o livro em mãos e tem consciência de que parte de si mesmo está lá, espalhada por páginas e mais páginas.

Se ele vende o livro só no boca-a-boca ou apenas numa loja online que ele mesmo montou, ou se seu livro está numa das maiores redes de livrarias do país, o que importa é que ele batalhou por isso. E ele deve ser julgado pelo que escreveu, não por haver ou não um selo na capa.

Julgar um livro pela capa é até compreensível. Agora, julgar um livro por um logotipo? É isso mesmo aquilo que pauta suas leituras?

O feminino na fantasia

Estudando a demografia dos meus leitores (cruzando dados do Skoob com os do PagSeguro), vi que 77% dos meus leitores são, em verdade, leitoras. E, ponderando acerca desses números, fico me questionando se é algo relacionado com o feminino na fantasia ou se é devido a eu ter protagonistas mulheres.

Ao menos, é isso o que me vem à mente em princípio.

Quando histórias como a de Deora e Eriana (e, em breve, Alexia – mas isso fica para outro momento) são contadas, elas quebram um paradigma dos contos fantásticos tradicionais, que colocam o protagonismo nas mãos dos homens. É uma quebra de paradigmas, pois o papel da mulher em muitos dessas narrativas acaba sendo secundário, como troféu (donzela a ser resgatada ou prêmio em casamento) para o campeão masculino que vence seus obstáculos ou como o próprio obstáculo (vilã). Contudo, felizmente, essa regra tem sido quebrada, embora ainda esteja longe de uma verdadeira revolução que permita a equidade no protagonismo fantástico.

Que autores me vêm à mente quando penso no protagonismo feminino na fantasia? Aqui vai uma pequena lista:

  • Pierce, com sua Alanna
  • Bradley, com sua Morgana
  • Merege, com sua Anna
  • Wrede, com sua Cimorene
  • E… Não, não me recordo de mais ninguém agora (e, é certo, estou deixando muitos sem citar aqui)

Mas sabe o que importa nesse breve exercício? Se me pedirem para enumerar dez, ou mesmo vinte, protagonistas do sexo masculino é provável que eu o faça sem pestanejar. É quase como se esse fosse o padrão da literatura fantástica, não?

E – talvez isso seja evidente, talvez não – apenas citei autoras. No momento, não me lembro de nenhum homem que tenha usado protagonistas femininas em suas narrativas. Desconhecimento meu ou simples fato estatístico? Protagonistas femininas surgem mais de autoras do que autores?

Isso me faz pensar que eu esteja na incômoda posição de pioneirismo, ao menos no cenário da literatura fantástica brasileira. Digo incômoda porque ser um dos primeiros sempre carrega estigmas e cobranças… Mas divago, pois provavelmente estou enganado.

Mas, será que ter protagonistas femininas é o que impele mais mulheres a lerem meus livros? Hora de uma pesquisa rápida! Acessei o Skoob e procurei pelo Livro 1 de As Brumas e Avalon. O resultado é…

…73% dos que avaliaram são mulheres. Será que a hipótese se confirma mesmo?

Como este é um experimento, temos de fazer outra pesquisa: um livro com protagonistas masculinos, escrito por um homem. Olhando as estatísticas de leitores de A Sociedade do Anel (primeiro livro da trilogia O Senhor dos Anéis, de Tolkien), temos 50% de leitoras… E esse número cai para 48% quando partimos para As Duas Torres…

Só que aí caímos no problema do universo estudado: dentre todos os leitores cadastrados no Skoob que tenham ” ” (espaço) no nome de usuário, 59% são mulheres… Se há mais mulheres lendo do que homens, todos os dados estatísticos sofrem um viés muito grande.

Exceto, é claro, no caso prático de livros efetivamente vendidos e lidos: eu sei que mais mulheres compraram meus livros, pois as vendas têm sido feitas na Lojinha ou pessoalmente.

Mas sou psicólogo, não um estatístico. Talvez alguém do mundo dos números possa providenciar um estudo mais profundo acerca desses dados que apresentei. Pelo menos, pode servir como bom tema para um TCC de Letras ou mesmo de Matemática. 😉

Talvez o cerne da questão do protagonismo feminino e o número de leitoras seja outro. Talvez seja como Rosenberg propôs (tradução livre):

Pode ser irreal esperar que sonhemos com a derrocada das estruturas sociais, com casamentos com bárbaros, com os requisitos do bordado, ou com um sábado à noite a procura do Senhor Certinho. Mas, às vezes, fazer de conta pode nos ajudar a descobrir o que realmente queremos.

Ou ainda, e isso provavelmente se deve porque gosto de simbolismo e misticismo, porque estamos vivendo uma era de renascimento na crença da Deusa, com todo o movimento New Age que veio com o início da Era de Aquário.

A verdade é que eu não sei. Não sei se é algo universal ou que se limita à literatura fantástica brasileira ou que se revela como sendo um fator intrínseco ao momento em que vivemos. O que você acha?

Sobre Eriana e o mundo que nos rodeia

Cada momento é mágico e cabe a nós lidar com essa magia. E, quando não se está preparado (“renegando” esse poder, esse seu deus interior), você começa a carregar estigmas… Mas para se libertar deles, você pode acabar agindo infinitamente pior do que você se propunha antes…

Ao invés de dominar a magia, é-se dominado (e corrompido) por ela.

Isso é Eriana.

(de uma conversa a grande amiga Thais)