Atisi

Meu mais novo RPG, Atisi, que se utiliza do sistema de regras do Barbarians of Lemuria, foi financiado com sucesso via Catarse. Foi um momento de extrema alegria ver que oitenta e nove pessoas acreditaram no potencial daquele livro e deram seu apoio. Foi um sinal de confiança e de carinho.

Porém, uma crítica ao conteúdo do livro (e a mim) chegou ao meu conhecimento há dois dias. Foi algo que se baseou em parte do livro (uma versão prévia, contendo trechos), mas que se tornou reflexo do todo. E, como estamos numa época em que é mais rápido somar uma voz a algo já dito do que compreender o que está sendo criticado, outros passaram a falar também de mim e do livro (que ainda não foi publicado).

Confesso que isso me deixou chateado. Somos seres tão emocionais quanto racionais, e isso me afetou.

Mas passou. Óbvio.

Contudo, em seguida, outra coisa aconteceu: pessoas passaram a verbalizar seu apoio por mim e pela obra.

Até aí, tudo bem. Isso trouxe um alento, pois eram pessoas que, ou me conheciam pessoalmente, ou conheciam minhas obras – e sabiam o que esperar de mim.

Porém, houve um problema. E não foi um problema simples. Deixe-me explicar.

Alguns dos meus apoiadores foram mais exaltados e começaram a criticar e a atacar (mesmo que sem citar nomes) os que falaram negativamente de mim e de Atisi. E esse é o grande problema! Quando você passa a atacar o outro, você demonstra que não entendeu nada do que eu escrevi.

Entenda, leitor, que cada um de nós só pode reagir a algo a partir de sua própria visão de mundo, e essa é moldada por nossas experiências. Duas pessoas terão, necessariamente, reações diferentes quando confrontadas por algo que mexa com sua visão de mundo – é natural, é esperado. – E, mais do que isso, com Atisi eu quis questionar também tudo isso.

Veja o exemplo da linguagem no livro:
genero
Embora alguns tenham achado estranho o uso do feminino ao se referir às pessoas que jogam o RPG (no caso, usando Mestra de Jogo e Jogadoras) e o masculino para se referir às personagens fictícias por elas representadas (Heróis, por exemplo), isso não é a primeira vez que acontece. Vejamos alguns exemplos:

Glorantha, na versão HeroQuest (2013), tem uma postura de usar o pronome feminino para quem conduz o jogo e o masculino para quem joga. Isso pode ser visto num pequeno trecho do livro, na página 8 do sample file deles. Em todo o caso, segue recorte da página:
glorantha
Fudge, publicado em 1995 pela Grey Ghost Press (e um dos RPGs que influenciou minha vida como RPGista), em suas regras (que podem sem baixadas aqui), refere-se a quem joga e seus personagens no masculino, e a quem conduz a aventura e seus personagens no feminino. Veja:
fudge
E poderia encontrar outros exemplos. Mas por que, quando trazemos isso para o idioma português (veja que nem o idioma inglês possui um pronome neutro para se referir a pessoas), isso incomoda? De certa maneira, a linguagem molda nossa forma de ver o mundo – e, quando atingimos a forma de ver o mundo de alguém, incomodamos. – Mas não é o trabalho do escritor justamente questionar nossas acomodações? Meu objetivo foi o de nos fazer repensar, mesmo que de maneira indireta, num jogo, nossa forma de ver o mundo. E, sinceramente, acredito que tenha atingido tal meta, pois isso gerou incômodo: se todos, sem exceção, aceitassem a proposta de apresentação do livro (masculino x feminino), isso tudo não seria necessário, pois nossa sociedade já teria deixado para trás esse viés de questão de gênero.

Mas este é um caminho longo, e, da mesma maneira como, na ficção fantástica (com os livros A última Dama do Fogo, Regência de Ossos, e Crença de Ossos, por exemplo) eu tenho protagonistas femininas fortes, quis colocar na figura das pessoas que jogam esse mesmo protagonismo feminino. Ou, de forma similar, no livro-jogo Mistério na Vila da Neblina, no qual a identificação de gênero de quem protagoniza o livro é deixada neutra, pois a figura heroica é a do leitor.

Outra coisa que ouvi como crítica, é a de eu ter embranquecido os povos no cenário. Isso me deixou mais perplexo do que chateado, pois claramente revela que, talvez no afã de apresentar uma argumentação contra a essência fantástica desse RPG de espada e feitiçaria (que sempre foi apresentado como tendo influência egípcia, e nunca como uma representação fiel da realidade do antigo Egito), ignoraram o conteúdo do livro. Não sei. Pode ter sido isso ou outra razão… Mas prefiro acreditar que tenha sido um lapso baseado na arte utilizada (mais sobre isso adiante) do que realmente uma interpretação do texto. Assim, vejamos trechos das descrições dos povos do cenário:

  • Atisi: “sua tez é bronzeada e seus cabelos e olhos costumam ser bem escuros.”
  • Gotai: “possuindo uma pele morena, olhos castanho-escuros e cabelos que beiram ao preto.”
  • Principados de Minal (um povo que não pertence aos Reinos Insulares, que é o foco do livro): “com estatura mediana e pele ligeiramente bronzeada.”
  • Mungo: “Os mungoeses são geralmente descritos como belos gigantes de obsidiana, mas esse exagero é perdoável. Eles são altos e possuem pele escura, com olhos negros e penetrantes.”
  • Kunla: “Os kunlani possuem estatura mediana e pele oliva, tendo olhos que variam do azul claro até o esverdeado.”
  • Kidhai: “Os kidhainas possuem pele muito escura, cabelos ondulados em tons pardos e olhos com íris negra e esclera amarelada.”
  • Javala: “Os javalanos possuem a pele ligeiramente bronzeada, cabelos e olhos castanho-escuros.”
  • Eiman: “Os eimani são baixos e largos, possuindo uma pele acobreada, olhos e cabelos castanho-claros.”
  • Qatab (que seria a exceção, pois é um povo que vem de terras distantes e é claramente inspirado na versão fantasiosa dos vikings): “Os qatabii são altos e de compleição firme, tendo pele e olhos claros, com cabelos que variam do louro até o ruivo.”

Entendem a razão de eu ter ficado perplexo quando falaram de embranquecimento? Mas como eu disse, isso pode ter relação com a arte usada.

E por quê? Bem, numa passada de olhos rápida, se minha conta não está errada, temos 50 imagens distintas no interior do livro. Se um artista fosse contratado para fazer cada uma delas, mesmo que sem exclusividade para a obra, estaríamos falando de um investimento de cerca de R$ 40,00 por arte (há variações, mas na média poderíamos chegar a valores similares a esse). Isso significa que, apenas com investimento de arte interna, teríamos um custo de R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Qual foi a alternativa? Recorrer a pacotes de imagens (custo reduzido, qualidade variável), imagens em domínio público, e, em casos específicos, contratação de um artista. Do contrário, jamais conseguiríamos ter uma meta tão baixa (foi pedido R$ 2.500,00) para confecção dos livros, pagar a licença de uso do sistema de regras, editoração e coisas assim.

Além do mais, vocês não acreditam o quão difícil é encontrar imagens representativas de povos de etnias africanas na fantasia. Foi uma busca longa, e, mesmo que tivéssemos encontrado uma ou outra imagem, como a que ilustra a seção de magia do livro, abaixo, foi impossível contemplar todas as possibilidades (a menos que tivéssemos um maior investimento, coisa que, para uma empreitada de um homem só, não foi possível desta vez). Quem sabe numa segunda edição? Assim espero.

De qualquer maneira, sendo o RPG um jogo que acontece no teatro da mente, usando a imaginação numa contação de histórias interativa e lúdica, nunca considerei a arte interna de um livro como o fator mais importante dele – é, assim como as regras, apenas um acessório para a diversão.

Mas, como frisei antes, tudo depende da visão de mundo de cada um. Eu tenho uma visão limitada? É óbvio que tenho. Por ser um homem branco, hétero, cis, minha visão de mundo é muito diferente daquela cujos povos são retratados, por isso procurei fazer duas coisas importantes: a primeira foi tratar o cenário como algo fantástico, e não um reflexo da realidade; a segunda, consultar historiadoras que defendem o movimento feminista e negros, pois por mais que a todo momento eu tenha tentado me colocar no lugar do outro, é evidente que minha percepção seria, no máximo, representada por uma forma de empatia…

É, talvez empatia seja a palavra chave nisso tudo. Ver-se como o outro. Tentar compreendê-lo antes de julgar. É por conta disso que acho que todo apoio que foi dado a mim e à obra recentemente e acabou se exaltando ao culpar e nomear o outro fugiu de tudo aquilo que acredito (lembram de uma postagem antiga, chamada A crítica e a verdade?) – mas isso, também, é fruto da visão de mundo de quem me apoiou.

E, ao falar em visão de mundo, lembro de uma das críticas que acaba comparando a descrição da mulher astuta com a mulher traiçoeira – quando alguém considera a pessoa astuta como traiçoeira ao invés de esperta ou sagaz (ou seja, busca a definição negativa ao invés da positiva ao compreender uma palavra), isso já demonstra como o mundo se coloca para ele. – Ou seja, no fim das contas, é preciso mudar o mundo para todos nós, mas um livro como o que escrevi não é capaz de mudar o mundo… Livros apenas mudam pessoas, se elas quiserem e se identificarem com eles… Mas espero que, com empatia, as pessoas realmente consigam mudar o mundo.

Mas, até que isso aconteça, que possamos nós fazer nossa parte.

8 thoughts on “Atisi”

  1. oi bom dia, gostaria de comprar seu livro anel elemental: nova era, ja te bastante tempo que o procuro mas não acho. como faço?

          1. serio! não tenho cartão de credito internacional,
            não existe outro meio de comprar seu livro?

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