Martel e Scliar

Eu sei. O que estou dizendo aqui não é algo novo, mas de alguma maneira a blogosfera literária trouxe novamente o assunto à tona e acho importante falar algo a respeito. Afinal, quando defendo a bandeira da liberdade de expressão dos blogs (e, com isso, manifesto-me contrariamente a qualquer tipo de plágio), também tenho de abarcar autores nesse ideal.

E aqui falamos da polêmica envolvendo Yann Martel e Moacyr Scliar. Caso seja esta a primeira vez em que você lê algo sobre o assunto, permita-me resumi-lo…

O livro A Vida de Pi (Life of Pi, no original), publicado em 2001 pelo canadense Yann Martel, tem uma premissa singular: um garoto sobrevive a um naufrágio e acaba por dividir seu pequeno bote com um grande felino. Tal livro lhe rendeu o Prêmio Man Booker em 2002. Posteriormente, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica que recebeu onze indicações ao Oscar.[pullquote]Por que ter uma premissa brilhante arruinada por um escritor menor?
-Yann Martel, sobre o livro de Moacyr Scliar[/pullquote]

Só que, em 1981 (20 anos antes d’A Vida de Pi), o saudoso escritor gaúcho Moacyr Scliar trouxe ao mundo a narrativa Max e os Felinos (Max and the cats, em inglês). Essa é uma história que fala de um garoto que sobrevive a um naufrágio e acaba por dividir seu pequeno bote com um grande felino.

Mas não considere apenas as minhas palavras sobre o assunto. Veja este trecho de uma entrevista concedida por Yann Martel via email ao sítio Brothers Judd (tradução livre):

Entrevistador: Talvez isto tenha a ver com a questão anterior mas, este parece ser o tipo de livro dirigido pela sua vontade de escrever sobre o Pi, pois ele é encantador demais, porém é também fácil imaginar um autor sendo dirigido pela imagem mental de um homem num bote com um tigre. Você teve alguma epifania, ou há alguma história ou pessoa específica, ou ainda outro gatilho que se tornou a base original para o livro, ou é o produto de apenas algumas ideias no papel?

Yann Martel: Em poucas palavras, isto é o que aconteceu: Dez anos atrás. Resenha no New York Times por John Updike acerca de um romance brasileiro de um tal Moacyr Scliar. Falava de uma família de judeus que tinha um zoológico em Berlim em 1933. Os negócios afundavam (alguém tinha acabado de tomar o poder). Eles decidem se mudar para o Brasil. O navio afunda. Tratador de animais acaba num bote com uma pantera negra. Óbvia alegoria da Alemanha Nazista.
Não era uma boa resenha. Nada contra Updike. Mas a premissa ficou em minha mente. Pensei “Cara, eu poderia fazer algo com isso.” Mas o livro já havia sido escrito, então eu segui em frente e escrevi meu primeiro romance e viajei.
Cinco anos depois eu estou na Índia. Lembro da premissa. Explosão imaginativa.

Agora vamos para 6 de novembro de 2002, visitando o New York Times. No trecho de uma reportagem, temos o seguinte (tradução livre, novamente):

“Eu não queria mesmo ler o livro,” escreveu Sr. Martel. “Para que isso? Por que ter uma premissa brilhante arruinada por um escritor menor? Pior, e se Updike tivesse errado? E se não apenas a premissa mas também sua execução fossem perfeitas? Melhor seguir em frente.”

O próprio Dr. Scliar disse: “Recebo todas as minhas resenhas dos meus editores, e não tenho nenhuma do John Updike. Então, esse é outro aspecto estranho dessa história.”

E então passamos ao Zero Hora de Porto Alegre com algumas palavras do autor de Max e os felinos:

A imprensa veiculou declarações atribuídas a Yann Martel segundo as quais ele teria tomado conhecimento do livro através de uma pouco favorável resenha do escritor norte-americano John Updike, publicada no The New York Times. Só que John Updike não escreveu resenha alguma sobre o livro, conforme declarou ao The New York Times de 6 de novembro. A resenha (elogiosa, se é que este detalhe interessa) publicada no The New York Times é de Herbert Mitgang. Mas, e isto quero destacar, em contraste a tais declarações, Yann Martel faz-me um agradecimento no prefácio de seu livro.

Esse é um caso isolado? Temo que não. Afinal, se voltarmos para a década de 30, temos outra polêmica literária envolvendo um livro publicado aqui no Brasil. É o caso de A Sucessora, de Carolina Nabuco. Tendo enviado o original para o estrangeiro na esperança de publicação (o que não ocorreu), preparou o caminho para, quatro anos depois, ver o livro Rebecca ser publicado por Daphne du Marier… Rebecca e A Sucessora têm o mesmo enredo e, segundo Larry Rohter (na mesma matéria apontada acima sobre Martel e Scliar), chegam a ter as mesmas cenas.[pullquote]Somos ainda uma colônia a ser explorada, com todos os recursos (antes materiais, agora também intelectuais) prontos a serem tomados pelos outros?“[/pullquote]

Será que a razão pela qual alguns fazem isso com nossa produção cultural é a tosca ideia de que o que produzimos aqui não tem valor, que pode ser apropriado à vontade? Somos ainda uma colônia a ser explorada, com todos os recursos (antes materiais, agora também intelectuais) prontos a serem tomados pelos outros? Há outros casos de plágio, desta vez envolvendo música.

Temos uma cultura maravilhosa. Temos boa música, temos excelente literatura. Mas o que falta para que percebamos isso? O que falta para nos conscientizarmos de que nem tudo o que vem de fora é melhor?

O que falta para termos orgulho de nós mesmos e para que ergamos nossa voz quando tentam usurpar o que é nosso?

One thought on “Martel e Scliar”

  1. Concordo com tudo que vc falou.
    Acredito que possam existir coincidências, mas o autor deixou claro que se baseou sim na obra do outro, deveria, no mínimo, pagar alguma coisa pro cara, né? E deveria ter pedido autorização.
    Acho muito complicado isso, a pessoa tenta uma oportunidade lá fora pra divulgar o trabalho dela, e é copiada!

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