Estigmas

Hoje eu li algumas mensagens em tom de desabafo no Twitter de Tatiana Mareto, uma colega escritora. Já tive livros autopublicados e até já falei sobre isso. Vejo a autopublicação como uma alternativa ao sistema editorial vigente e, por mais que eu hoje seja um autor publicado pela Editora LetraImpressa, não tenho como não apoiar aqueles que querem seguir um caminho solo.

Tatiana diz que não entende a preferência dos leitores por livros publicados por editoras tradicionais (clique na imagem para ampliá-la, ou leia a mensagem original). Eu acho que entendo. A questão, creio, baseia-se no critério que, em tese, deve existir para uma publicação tradicional.

Em tese (e friso bem isso porque nem sempre isso ocorre), o autor encaminha seu texto para uma editora tradicional que o repassa para seus leitores críticos (in house, como editores, ou freelancers pré-selecionados). Se a obra está dentro dos gêneros publicados pela editora, se a leitura é instigante, se o texto é bem escrito, se vale a pena publicar (veja que, desses quatro critérios, apenas dois são objetivos…), o livro é apresentado para a Comissão Editorial (que pode ser formada por apenas uma pessoa em editoras pequenas) para discussão. Se for aprovado, o texto volta para o autor para efetuar eventuais mudanças e, depois de uma segunda análise crítica (e, às vezes, uma terceira, quarta e quinta análises), ele pode ser publicado. Isso, é claro, em linhas gerais e sem entrar a fundo no processo propriamente dito.

Então, quando o livro está na livraria, diante do leitor, ele já passou por todos esses crivos. E, em tese, será algo bom de ser lido.

E aí?

Acontece que algumas editoras tradicionais também têm aberto espaço para algo similar à autopublicação – digo similar porque se teve o intermédio de uma editora, não mais se aplica o prefixo auto. Às vezes a editora avisa o leitor ao colocar os livros assim publicados sobre um selo específico, mas às vezes esses livros aparecem nas estantes das livrarias sem diferença alguma dos outros títulos.

É então que a coisa complica. Há editoras com pacotes específicos, que incluem a revisão, diagramação, elaboração de capa, distribuição… Outras colocam tudo isso à parte. Confia na revisão feita pela sua tia? Ótimo, não pague a revisão. Acha que sua diagramação no Word está boa? Perfeito, não pague pela diagramação. A capa feita no Paint ficou linda? Esqueça o pagamento da capa… Brincadeiras à parte, às vezes é melhor você ter um revisor de confiança do que esperar que a editora faça a revisão para você, mas acho que já dá para entender o que quero dizer.

Bem, e onde está o crivo da leitura crítica? Nesse caso, não há. Se o autor pôde pagar pela publicação, ele será publicado.

Agora, em que isso difere da autopublicação?

Na verdade, no logotipo da editora colocado ou não na capa do livro.

Um bom autor, consciente das suas responsabilidades como artífice da palavra, sabe que seu texto deve ser julgado por seus pares (leitores críticos), deve ser escrito de acordo com a norma ortográfica (um bom revisor pode auxiliar nisso) e ser de fácil leitura (é para isso que diagramadores estudam tipografia e outras formas de apresentação de texto)… Se ele quer apresentar um bom livro, ele terá cuidado com essas coisas, seja em um livro autopublicado ou em um financiado inteiramente por uma editora. Ele vai querer que sua obra seja algo a ser degustado.

Outros, porém – mais escrevinhadores do que autores -, querem apenas colocar seu texto nas mãos dos leitores. Seja um texto bom ou ruim, autopublicado ou com o selo de uma editora, seu objetivo é só mostrar a história que inventou. É desse tipo de obra que o leitor deve recear. – fuja! não abra o livro!

Um bom autor luta para ter um bom livro. Por mais que haja estigmas pelo fato de não haver um selo de uma editora na capa, ele continua com a bandeira de sua narrativa, querendo levar sua obra aos leitores. Ele sabe as agruras que enfrentou até ter o livro em mãos e tem consciência de que parte de si mesmo está lá, espalhada por páginas e mais páginas.

Se ele vende o livro só no boca-a-boca ou apenas numa loja online que ele mesmo montou, ou se seu livro está numa das maiores redes de livrarias do país, o que importa é que ele batalhou por isso. E ele deve ser julgado pelo que escreveu, não por haver ou não um selo na capa.

Julgar um livro pela capa é até compreensível. Agora, julgar um livro por um logotipo? É isso mesmo aquilo que pauta suas leituras?

6 thoughts on “Estigmas”

  1. Excelente texto.

    É bem isso mesmo. Se você é independente é visto como um coitado que não conseguiu uma editora de peso para ser publicado, quando na verdade você é corajoso, livre, independente e não está preso às regras fixas e até antiquadas de muitas editoras.

    Abraço! 😀

  2. Adorei o seu texto, ele aponta exatamente a situação a qual muitos autores estão passando nesse momento; brilhante, certeiro e que abre os olhos de quem lê; eu sou escritora, luto e corro atrás para ter o meu espaço na literatura brasileira, porque ser escritor não é só sentar na cadeira e escrever uma história bonitinha e bem feita, tem muito mais por trás disso; eu estou correndo atrás do meu espaço, meu livro está publicado em vários sites e eu estou guiando a minha carreira, quem sabe um dia eu terei uma editora – seria um máximo -, no entanto, não fico sonhando com isso, e agora, eu sou dona da minha carreira e estou percorrendo um caminho único. Autores que não tem editoras são pobres coitados? Eu não acho isso, fiquei 5 dias seguidos em #1 lugar na Amazon e desde que publiquei o livro, em março desse ano, meu livro está entre os 20+ comprados no site. Se isso: ser reconhecido, respeitado e lido é ser um pobre coitado, eu devo estar louca porque para mim é uma grande honra.
    Todos podem conquistar o seu espaço, seja com uma editora ou independente, só depende de boa vontade, responsabilidade e determinação.

    Vejo um futuro promissor, para todos os autores brasileiros, dos com editoras até os independentes, pode demorar, mas tenho certeza que muitos estão mudando sua visão sobre o mercado literário,e tenho certeza que seu texto irá abrir a mente dos que ainda estão na penumbra.

    Parabéns pelo texto e pelos seus livros.
    Um beijão!

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