O feminino na fantasia

Estudando a demografia dos meus leitores (cruzando dados do Skoob com os do PagSeguro), vi que 77% dos meus leitores são, em verdade, leitoras. E, ponderando acerca desses números, fico me questionando se é algo relacionado com o feminino na fantasia ou se é devido a eu ter protagonistas mulheres.

Ao menos, é isso o que me vem à mente em princípio.

Quando histórias como a de Deora e Eriana (e, em breve, Alexia – mas isso fica para outro momento) são contadas, elas quebram um paradigma dos contos fantásticos tradicionais, que colocam o protagonismo nas mãos dos homens. É uma quebra de paradigmas, pois o papel da mulher em muitos dessas narrativas acaba sendo secundário, como troféu (donzela a ser resgatada ou prêmio em casamento) para o campeão masculino que vence seus obstáculos ou como o próprio obstáculo (vilã). Contudo, felizmente, essa regra tem sido quebrada, embora ainda esteja longe de uma verdadeira revolução que permita a equidade no protagonismo fantástico.

Que autores me vêm à mente quando penso no protagonismo feminino na fantasia? Aqui vai uma pequena lista:

  • Pierce, com sua Alanna
  • Bradley, com sua Morgana
  • Merege, com sua Anna
  • Wrede, com sua Cimorene
  • E… Não, não me recordo de mais ninguém agora (e, é certo, estou deixando muitos sem citar aqui)

Mas sabe o que importa nesse breve exercício? Se me pedirem para enumerar dez, ou mesmo vinte, protagonistas do sexo masculino é provável que eu o faça sem pestanejar. É quase como se esse fosse o padrão da literatura fantástica, não?

E – talvez isso seja evidente, talvez não – apenas citei autoras. No momento, não me lembro de nenhum homem que tenha usado protagonistas femininas em suas narrativas. Desconhecimento meu ou simples fato estatístico? Protagonistas femininas surgem mais de autoras do que autores?

Isso me faz pensar que eu esteja na incômoda posição de pioneirismo, ao menos no cenário da literatura fantástica brasileira. Digo incômoda porque ser um dos primeiros sempre carrega estigmas e cobranças… Mas divago, pois provavelmente estou enganado.

Mas, será que ter protagonistas femininas é o que impele mais mulheres a lerem meus livros? Hora de uma pesquisa rápida! Acessei o Skoob e procurei pelo Livro 1 de As Brumas e Avalon. O resultado é…

…73% dos que avaliaram são mulheres. Será que a hipótese se confirma mesmo?

Como este é um experimento, temos de fazer outra pesquisa: um livro com protagonistas masculinos, escrito por um homem. Olhando as estatísticas de leitores de A Sociedade do Anel (primeiro livro da trilogia O Senhor dos Anéis, de Tolkien), temos 50% de leitoras… E esse número cai para 48% quando partimos para As Duas Torres…

Só que aí caímos no problema do universo estudado: dentre todos os leitores cadastrados no Skoob que tenham ” ” (espaço) no nome de usuário, 59% são mulheres… Se há mais mulheres lendo do que homens, todos os dados estatísticos sofrem um viés muito grande.

Exceto, é claro, no caso prático de livros efetivamente vendidos e lidos: eu sei que mais mulheres compraram meus livros, pois as vendas têm sido feitas na Lojinha ou pessoalmente.

Mas sou psicólogo, não um estatístico. Talvez alguém do mundo dos números possa providenciar um estudo mais profundo acerca desses dados que apresentei. Pelo menos, pode servir como bom tema para um TCC de Letras ou mesmo de Matemática. 😉

Talvez o cerne da questão do protagonismo feminino e o número de leitoras seja outro. Talvez seja como Rosenberg propôs (tradução livre):

Pode ser irreal esperar que sonhemos com a derrocada das estruturas sociais, com casamentos com bárbaros, com os requisitos do bordado, ou com um sábado à noite a procura do Senhor Certinho. Mas, às vezes, fazer de conta pode nos ajudar a descobrir o que realmente queremos.

Ou ainda, e isso provavelmente se deve porque gosto de simbolismo e misticismo, porque estamos vivendo uma era de renascimento na crença da Deusa, com todo o movimento New Age que veio com o início da Era de Aquário.

A verdade é que eu não sei. Não sei se é algo universal ou que se limita à literatura fantástica brasileira ou que se revela como sendo um fator intrínseco ao momento em que vivemos. O que você acha?

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